Violência na primeira infância e mídia: uma discussão necessária

Violência na primeira infância e mídia: uma discussão necessária

De acordo com o Plano Nacional da Primeira Infância, há aproximadamente 20 milhões de crianças entre zero e seis anos de idade no Brasil. A Fundação Abrinq, no estudo “Cenário da Infância e da Adolescência no Brasil”, relata que cerca de 5,8 milhões (13,5%) de pessoas entre zero e 14 anos vivem situação domiciliar de extrema pobreza, um dos fatores que incrementam os números de violência contra crianças. Com o intuito de trazer essa temática à sociedade, relacionando-a com a abordagem da imprensa, a Agência de Notícias da Infância Matraca, por meio do projeto “Primeira Infância em Rede”, realizou a roda de diálogos “Violência na Primeira Infância e Mídia”, facilitada pela jornalista Lissandra Leite, voltada para alunos de Comunicação e áreas diversas.

No debate sobre o tema, é importante ressaltar que não existe um consenso formado sobre o que é a violência ou quais são suas causas, pois se trata de uma construção social, ou seja, é necessário entender que o conceito varia de acordo com cultura, contexto histórico, economia, entre outros. No que diz respeito às crianças, é comum que ocorra a negligência, violência física, violência sexual e violência psicológica, como relata Lissandra Leite: “A violência é multifatorial e multicausal”.

A discussão sobre violência contra crianças é relevante, pois os danos produzidos são inúmeros, podendo ser breves, perdurarem ou durarem toda vida, caracterizando um fenômeno social e não natural, o que possibilita que haja prevenção, já que nenhum ser humano nasce violento, mas se torna a partir das relações que experienciam. “A violência é um fenômeno comportamental, logo, as pessoas podem reverter essa situação”, destaca Lissandra.

A violência na primeira infância começa, muitas vezes, antes mesmo do seu nascimento, com a violência obstétrica e a realização de partos cesarianos desnecessários. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 56% dos partos realizados atualmente no Brasil são cesáreos, o que está diretamente relacionado com os problemas que se desencadeiam e levam à mortalidade infantil, sobretudo antes dos 27 dias de vida.

A imprensa tem alcance para moldar os debates da agenda social e de pautar prioridades para a agenda política, sendo um espaço que deveria garantir visibilidade de determinados temas, trazer informações e elementos para os debates públicos para que as pessoas tenham base e sejam formadoras de opinião, além de ser um espaço que possibilita que se faça monitoramento das políticas públicas. Os temas abordados com mais frequência pela cobertura jornalística em relação ao tema são o abuso sexual e a violência doméstica, porém ainda é um debate muito raso, pois, uma série de outras coisas ficam de fora da discussão, carecendo de reflexões mais aprofundadas sobre o problema.

O marco legal que protege os direitos da infância, o plano nacional da primeira infância, são exemplos de temas que devem ser abordados, são acontecimentos importantes na área e pouco se sabe sobre eles. “Um grande desafio da imprensa brasileira na atualidade é ir além da cobertura factual (do ato violento), é necessário qualificar a discussão para pautar novos olhares e ações em relação ao fenômeno da violência”, conclui Lissandra Leite.

Texto: Yara Mendes/ Revisão: João Carlos Raposo

Foto: Lucas Fonseca