Por que não poderia haver amor sem sexo?

Por que não poderia haver amor sem sexo?

“Assexual é a pessoa que não tem interesse na prática sexual”, definição dada pelo site assexualidade.com.br. As dúvidas e discussões sobre esse tema começam justamente pela definição. Por classificar pessoas, seres com comportamentos diferentes, as definições podem variar, mas o ponto em comum é que os assexuais têm desinteresse pelas práticas sexuais e nem sempre são pessoas que não experienciam atração sexual, como comumente se ouve.

A doutora em Educação e principal pesquisadora sobre assexualidade no Brasil, Elisabete Regina de Oliveira, em entrevista à Agência de Notícias da Infância Matraca esclareceu algumas dúvidas a respeito desse assunto.

Agência Matraca – O que é assexualidade?

Elisabete: A assexualidade é uma forma de viver a sexualidade caracterizada pelo desinteresse pela atividade sexual, que pode ser acompanhado pelo desinteresse por relacionamentos amorosos. Não se trata de uma escolha, assim como a homossexualidade, heterossexualidade ou bissexualidade – trata-se da forma como a pessoa se constrói. Os assexuais costumam considerar a assexualidade como uma orientação sexual.

Agência Matraca – Como surgiu o conceito de assexualidade que conhecemos?

Elisabete: Antes da internet, não havia o conceito de assexualidade. Havia pessoas desinteressadas por sexo, mas como indivíduos, não como uma categoria coletiva. Somente com o advento das tecnologias e da internet essas pessoas souberam da existência de outras e puderam se unir em comunidades virtuais.

Agência Matraca – A partir de que idade e em que contexto as pessoas começam a se reconhecer assexuais?

Quase todos os meus 40 entrevistados na pesquisa perceberam que eram diferentes dos colegas por volta do início da adolescência, quando os/as colegas começaram a se interessar por sexo e relacionamentos amorosos. Eles/as não conseguiam entender esse interesse e passavam a se questionar por que eram diferentes. Nesse processo, formulavam hipóteses para seu desinteresse, como por exemplo timidez, religiosidade, imaturidade e até mesmo homossexualidade. Não encontravam informações, nem referências de identificação. Todos chegaram a ideia de assexualidade pela internet, identificando-se com o conceito e colocando um fim em seu autoquestionamento.

Agência Matraca – Como são os relacionamentos das pessoas assexuais?

Para os assexuais, o que define o relacionamento amoroso é o amor, não o sexo. É o sentimento, a cumplicidade, o companheirismo, o carinho. Vale lembrar que, em nossa visão, é possível haver sexo sem amor. Então, por que não poderia haver amor sem sexo? Se são categorias separadas e independentes, o amor sem sexo seria tão possível quanto o sexo sem amor. O amor assexual pode ser direcionado ao mesmo sexo, ao outro sexo, a qualquer dos sexos ou independente de sexo e gênero. Quanto às práticas, existe muita diversidade: alguns não gostam de contato físico, outros aceitam beijos e carícias, cada casal resolve quais serão as práticas aceitáveis.

Agência Matraca – Essas pessoas sofrem algum tipo de preconceito? Quais e por quê?

Como a assexualidade é pouco conhecida e pouco estudada, quando alguém se identifica como assexual provoca surpresa. Primeiro porque as pessoas não sabem do que se trata. Depois, não acreditam que alguém normal possa viver sem sexo. Portanto, muitas pessoas que poderiam se identificar como assexuais – ou que se identificam como assexuais somente para si – preferem viver “no armário”, sem revelar sua sexualidade para família e amigos. Por conta disso, podem ser lidos socialmente como homossexuais enrustidos, que não têm coragem de assumir sua homossexualidade. Quando isso acontece, podem sofrer discriminação e homofobia.

 

Entrevista: Vilma Santos

Foto: Lucas Fonseca