Acessibilidade para crianças cegas também é um direito

Acessibilidade para crianças cegas também é um direito

Se você navega nas redes sociais ou em outros conteúdos oferecidos pela internet, talvez tenha se deparado com a hastag #PraCegoVer. Criada pela professora baiana Patrícia Silva de Jesus, conhecida como Patrícia Braile, a ideia é garantir mais acessibilidade para as pessoas cegas. Com a hastag, deficientes visuais conseguem ler imagens – através dos mecanismos que transformam em voz a leitura da tela. Essa é apenas uma das ações que provam que é possível tornar o mundo das fotografias, desenhos e demais imagens mais acessível.

Mais que uma boa ação, possibilitar o contato com todas as formas de cultura para os cegos é um direito deles. A Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada por unanimidade pela Organização das Nações Unidas – ONU, diz no artigo 25, parágrafo 1º, que “Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência a participar na vida cultural, em base de igualdade com as demais pessoas, e deverão tomar todas as medidas apropriadas para que as pessoas com deficiência possam usufruir o acesso a materiais, atividades e serviços culturais, bem como a monumentos e locais de importância cultural nacional”. O Brasil, como signatário, tem obrigação de cumprir essas medidas.

As crianças e adolescentes estão incluídas nesse direito e precisam de cuidados ainda mais especiais para que tenham o mesmo acesso. O professor da Escola de Cegos do Maranhão, Antônio Rocha, trabalha com essa faixa etária e explica a necessidade de trabalhar com os demais sentidos como alternativa para os cegos. “No momento em que a criança pega alguma coisa com a mão, ela entende o que é, quando um filme tem audiodescrição, ela entende as imagens que não pode ver”, ressalta o educador.

Antônio comentou que é necessário atenção na garantia desse tipo de acessibilidade. “É preciso facilitar a entrada e a saída dos locais, e também no ambiente virtual, para a permanência da pessoa”, enfatiza. Para além dos cuidados físicos com as crianças cegas, o professor também citou a acessibilidade na comunicação e nas atitudes de todas as pessoas: “Por exemplo, quando algum cego chega em um local, a maioria das pessoas não sabe como se portar”.

O que remete a outro fator importante, que é a conscientização da sociedade para que possa cobrar do poder público os direitos dos cegos. A página da #PraCegoVer no Facebook, por exemplo, explica que a hastag “carrega em si o princípio de que a cegueira às vezes está nos olhos de quem enxerga. Ela existe para o cego que não enxerga a imagem e para o vidente que não enxerga o cego. É uma provocação, um chamamento para as pessoas se enxergarem mais, saírem de suas zonas de conforto e perceberem que podem fazer acessibilidade, mesmo que seja uma breve descrição de uma imagem na internet”.

Sendo assim, é perceptível que a luta na garantia de acessibilidade cultural para cegos é de todos na sociedade. A cultura é feita por todos os humanos, logo todos também são responsáveis pela sua disseminação. Não apenas as pessoas com deficiência visual devem buscar essa causa, mas pessoas comuns podem tornar o mundo mais inclusivo com as atitudes do dia a dia.

Texto: Vilma Santos

Revisão: João Carlos Raposo

Foto: reprodução (fonte: http://www.casadaptada.com.br/2015/05/ufrj-realiza-o-3o-enac-encontro-de-acessibilidade-cultural/ )